Alessandro Boffa
Eu, Viskovitz, era um micróbio.
“Tamanho não é documento, Viskovitz”, ouvia dizer. “O importante é ser você mesmo.”
Como se fosse fácil. Nem bem conseguira afeiçoar-me ao meu
nome e já tinha me tornado dois micróbios, VISKO e VITZ. Imaginem então
quando virei quatro: VI, SKO, VI e TZ. Fiquei em frangalhos.
Era mais ou menos como todos nós estávamos então, no
pré-cambriano. “Que fazer”, dizia-se, “a vida é assim.” “Metabolismo”
parecia-me um termo mais apropriado. A nossa ideia de divertimento era
sedimentar em companhia de coacervados e proteinóides, metano e amoníaco
eram considerados uma “ótima atmosfera”.
Quando começaram a me chamar de V, I, S, KO, V, I, T, Z,
percebi que estava na hora de fazer alguma coisa. Mas qual coisa? E
quem? Eu estava em minoria até dentro de mim mesmo, as pessoas me
tratavam por “vocês”.
Foi então que ouvi aquela Voz: V, I, S, KO”, disse-me, “está na hora de virar bicho”.
“Bicho?” Naquela altura, qualquer sugestão valia: o que para um era degeneração, para outro podia ser evolução.
“Não sei por onde começar”, confessamos.
“Por serem egoístas, cheios de si. É só se agarrar com todas as forças ao nosso minúsculo eu; não deve ser difícil para você...”
Tentamos. O que de mim havia restado nos meus oito micróbios teve um
frêmito de orgulho, um incremento de viscosidade e, com heróico esforço,
fez que se agregassem num único plasmódio. Foi o primeiro organismo
pluricelular, creio eu, e o primeiro eu verdadeiro. Exatamente eu,
Viskovitz.
“E agora?” perguntei.
“Hum... Agora tem de aprender a matar e devorar o próximo. Grande como você ficou, não deve ser difícil.”
“Outros seres vivos?”
“Vivos só enquanto você não acabar com eles, Visko. Não há mal nenhum nisso: chama-se vida heterotrófica.”
Não me parecia perigoso, os vizinhos eram bem franzinos. Olhei em torno e
logo encontrei o que me servia: Zucotic, o bacilo; Petrovic,o vibrião; e
Lopez, o espirilo. Três paleogermes sépticos e virulentos que tinham me
adoentado com as suas toxinas durante todo o arqueozóico. Fui lá,
catei-os a tapa e devorei-os. Foi o primeiro exemplo de “sobrevivência
do mais bem adaptado”, conceito que iria longe.
“E agora?”
“Agora deve aprender a... fazer aquela coisa... Bem, quer dizer...
conjugar-se com outro organismo e recombinar-se. Encontre alguém que lhe
agrade, para trocar um pouco de DNA.”
“Mas...”
“Não é feio, não, Visko. Siga o seu coração.”
Pensei que se referisse a VITZ, as quatro células que se agitavam no
centro da minha sárcina, com um pouco de imaginação eu podia
considerá-las um coração. Ejetei V e fiquei observando aonde ia. Foi
logo tratando de escapulir, de afastar-se com torções e flexões do
plasma. Segui-o remando com os flagelos até que o vi alcançar uma
gelatina albuminóide de micoplasmas prateados, cingida por longos cílios
filamentosos e fímbrias purpúreas. Foi então que perdia a sua pista.
“Ei, você aí, gel!”, berrei. “Ou muito me engano, ou você pegou o meu coração.”
“Aqui os corações vão e vêm”, respondeu com uma risadinha debochada a ladra de corações. “Como era o seu?”
“Um micoplasma esférico, um tanto elástico e mole, da última vez que o senti palpitar.”
“Bem, pode reavê-lo, se quiser. Mas tem que vir pegá-lo, plasmódio.”
“Plasmódio é o meu tipo morfológico, o meu nome é Viskovitz.”
“E gel é a vovozinha: o meu nome é Liuba.”
Com cautela, aproximei-me dela e aderi à sua massa viscosa, depois
extroflecti I, endureci-o e afundei-o no corpo da sujeita para que nele
encontrasse o compadre fujão. Naquele vai-não-vai, acabei perdendo
também I, que se escafedeu e mergulhou, plasma e periplasma, no U dela.
Foi assim que inventei o sexo. Meio desastrado, mas com todo o coração. Perguntei à gelatina o que ela tinha achado daquilo.
“Isso é sexo?”, desatou a rir, tremendo toda. “Você chama isso de sexo?”
Continuando a gargalhar, contraiu o sifão e fez-se ao largo, sem deixar
rastro, deixando-me ali, com o coração me frangalhos.
Era aquele vazio que doía, aquela voragem no centro do ser. Não que
VISKOTZ fosse um nome feio, entendamo-nos, mas era o nome de um
plasmódio ferido, de um bicho diminuído no seu eu. Resolvi construir uma
jaula de mureína em torno dos restos daquele coração.
“Não faça isso, Visko”, advertiu a voz.
“Você de novo!”, explodi. “Posso saber de uma vez por todas quem diabos é você?”
“Eu sou... a voz do seu plasma mais antigo. O Micróbio Primordial, a
Protocélula de quem todos vocês nasceram, o EU que abrange vocês todos.
Pode me chmar de VI.”
“VI?”
“É, VI. VI de VISKO, sua mente, VI de Vitz, seu coração, VI do sêmen que você difundiu, VI de toda a vida, meu filho.”
“Escute aqui...” Alguma lógica aquele discurso tinha, algo do primeiro micróbio podia ter ficado dentro de mm. E nos outros.
“Com que então seu plasma estaria dentro de todo o mundo, inclusive naquela Liuba, só para citar alguém.”
“Exatamente. E garanto uma coisa; você vai revê-la, Visko, vai revê-la. E
talvez as coisas corram um pouco melhor para você. Talvez.”
“E vai me dizer que você também estava dentro de Zucotic, Petrovic e Lopez?”
“Estava e ainda estou. Também eles você vai ter de rever, Visko, a minha imaginação é aquilo que é...”
“Você pretende fazê-los evoluir também?”
“Evoluir é uma palavra que não me agrada. O divertido é ‘mudar’, Viskovitz.”
“Um momento. Você me chamou de Viskovitz, mas sabe muito bem que esse nome não faz mais sentido.”
“Sei o que estou dizendo. Olhe no seu coração e verá que tenho razão. Ande, não tenha medo, não é um exercício espiritual...”
Voltei-me para mim mesmo, hidrolisei os polissacarídeos e espiei.
Naturalmente só vi T e Z. no entanto, com aquele contato íntimo, V e I
de Visko começaram a reavivar-se. A duplicar-se, bilobar-se, septar-se e
cindir-se. Poucos minutos depois, a regeneração era completa, e eu me
encontrava diante dele, VITZ.
“Fiat eu...”, gritei. Eu era de novo eu, o velho animal, mais em forma
que nunca. Bem, disse para mim mesmo, ótimo, ninguém mais me segura,
chegou o momento de dar uma boa lição a todo mundo, ecossistema ladra!
Desatei a chorar e a rir, como um garotinho. Tinha certeza de que, das
minhas lágrimas salgadas, surgiria o mar, sim, senhor, o mar, e a
partir dali começaria a vida, a verdadeira vida...
“Muito bem, você agora é um animal, elogiou-se a voz, “mas ainda falta aprender uma coisa...”
“Ouçamos. A meiose? A fermentação? A ontogênese?
“A morte, Visko.”
“Está brincando.”
“Você não é mais um micróbio, Visko. Os animais morrem.”
“Um momento, amigo, um momento... Renunciar a tudo?”
“A tudo.”